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Livraria Leonardo da Vinci

Colonização punitiva e totalitarismo financeiro na pré-venda

Colonização punitiva e totalitarismo financeiro na pré-venda

O segundo título da Da Vinci Livros acaba de entrar na pré-venda. Trata-se de uma obra inédita de um dos maiores juristas contemporâneos, o argentino Eugenio Raúl Zaffaroni. Contundente e fortemente político, Colonização punitiva e totalitarismo financeiro denuncia os sofisticados e cruéis mecanismos da ditadura do capital a que a humanidade está submetida e aponta para sua superação a partir dos saberes do Sul.

Pré-venda: https://bit.ly/3vuEg3Q

Como o poder de punir, de impor sofrimento ou destruir outras pessoas produz o “genocídio gota a gota” que coloca em risco a própria humanidade? Por que os “saberes oficiais” levaram à naturalização dos processos de sub-humanização? Os detentores do poder econômico identificam-se com a macrocriminalidade organizada? É possível resistir ao programa suicida inerente ao totalitarismo financeiro? Há espaço para um novo paradigma adequado à maioria excluída?

Neste livro, Eugenio Raúl Zaffaroni, um dos principais intelectuais contemporâneos, analisa fenômenos como o colonialismo tardio, a colonização punitiva, o totalitarismo financeiro, a macrocriminalidade organizada, o partido midiático, a demonização das lideranças populares, a arrogância intelectual do norte e as ilegalidades das agências estatais para produzir um saber nosso (a criminologia do ser-aqui), a partir dos nossos problemas; um saber capaz de projetar-se em sentido emancipatório.



Eugenio Raúl Zaffaroni é Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (1964) pela Universidade Nacional do Litoral (UNL). É professor emérito e diretor do Departamento de Direito Penal e Criminologia da Universidade de Buenos Aires (UBA). Foi Ministro da Suprema Corte de Justiça da Argentina (2003-2014) e, desde 2015, é Juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Autor de mais de vinte e cinco livros, desempenhou a magistratura durante décadas, sendo Deputado Constituinte Nacional, em 1994, e da cidade de Buenos Aires, em 1996. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa em quarenta e cinco universidades da América Latina e da Europa. Entre os diversos prêmios e condecorações recebidas, destacam-se o Prêmio Estocolmo de Criminologia (2009), a Ordem do Mérito do Governo Alemão, a Ordem da Estrela da Solidariedade Italiana e o Prêmio Silvia Sandamo, recebido no Campidoglio de Roma (2010). É Vice-Presidente da Associação Internacional de Direito Penal e da Sociedade Internacional de Defesa Social. Membro do Painel de Eminentes Juristas da Comissão Internacional de Juristas de Genebra.


Crime: crença e realidade, de Juarez Tavares, entra na pré-venda

Crime: crença e realidade, de Juarez Tavares, entra na pré-venda

O primeiro livro da Da Vinci Livros acaba de entrar na pré-venda. Obra de um dos maiores juristas brasileiros, Juarez Tavares, Crime: crença e realidade reflete sobre como enxergamos o crime na maioria de nossas sociedades e aborda os limites do crescente apelo ao punitivismo. Um livro fundamental, contra o senso comum punitivista.

Pré-venda: https://bit.ly/3A5LMU2

O crime, não raro, é apresentado como o novo epicentro da sociedade. Correlata ao declínio dos valores e princípios democráticos e republicanos, assistimos a uma espécie de imersão institucional nas questões criminais: criminaliza-se tudo, da política a fatos insignificantes.

Os processos de criminalização servem também para controlar os indesejáveis aos olhos dos detentores dos poderes político e econômico. Manipula-se o medo, o sentimento de insegurança cresce e as leis penais são transformadas em respostas mágicas para os problemas sociais.

Nas últimas décadas, a maioria das sociedades se tornou refém dessas narrativas sobre o crime. O resultado foi o aumento da repressão, leis penais severas e juízes punitivistas.



Juarez Tavares, um dos mais importantes intelectuais brasileiros, apresenta neste livro um diagnóstico preciso da questão criminal, revelando os danos causados pelos discursos oficiais. Ao mesmo tempo, indica uma perspectiva emancipatória na direção contrária ao populismo penal e à fé cega na punição. A partir de uma abordagem transdisciplinar, Tavares recorda que crime não passa de conceito jurídico, um instrumento a serviço do poder, e que nada justifica a defesa de absurdos em nome de seu combate.

Contra o senso comum e as odes à punição, Crime: crença e realidade propõe o necessário exame dos pressupostos que nutrem tanto o gosto de punir quanto a naturalização dos processos de criminalização. Trata-se de um audacioso convite para repensar o lugar do crime no mundo contemporâneo.



A livraria e a cidade

A livraria e a cidade

O que seria da história das cidades sem esse lugar, sem essa ideia chamada livraria?

O que seria da história do Rio sem os encontros, a sociabilidade, a troca de ideias, sem a sensação de pertencimento gerada pelas livrarias?

O que seria da cidade sem o seu comércio local?

O que seria de uma cidade sem o seu comércio de rua, sem o seu comércio local?

Uma cidade é muito mais do que uma coleção de paisagens ou prédios; uma cidade é o movimento de suas ruas, sua vida cultural.

As livrarias do Rio representam muito bem esse espírito: a conversação da cidade, uma ideia de cidade.

Aventure-se, descubra, conheça, encontre as livrarias cariocas, encontre a sua livraria carioca.

Perto de casa ou à distância de um clique ou mensagem, as livrarias cariocas estão prontas para levar até você os livros da sua vida.

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Imagine

Imagine

Por um instante, imagine que isso seja verdade.

Imagine essa mesma placa no restaurante do seu bairro, pendurada na vitrine do seu mercadinho preferido, em todo o pequeno comércio da sua cidade.

Imagine sua cidade sem comércio local, sem vida de rua, sem cena cultural, uma cidade que gera poucos subempregos super explorados. Imagine sua cidade tomada pela economia de aplicativos com um exército de trabalhadores andando de bicicleta ou moto 14 horas por dia para a sua felicidade smart e quem não pode se sacode.

Imagine que toda a riqueza gerada nessa cidade, ou nesse estado, ou nesse país, não volte para a comunidade, não se transforme em calçamento, segurança, serviços públicos. Imagine que essa riqueza seja enviada para outro país, entesourada por bilionários em dólar.

Imagine que esses bilionários em dólar paguem muito menos impostos que os extintos pequenos comerciantes dessa cidade, ou desse estado, ou desse país. Imagine que os bilionários em dólar paguem proporcionalmente muito menos imposto que você.

Imagine que esses bilionários em dólar que pagam poucos impostos e mudam as leis e fazem as próprias leis são agora os únicos clientes de seus fornecedores e os únicos a vender para você e, por isso, definem o preço de cada coisa.

Imagine que você adore preços baixos e ame frete grátis mais do que a seus parentes ou a seu gatinho ou a seu cachorro. Imagine que você faz parte de um projeto maior e que comprar um livro ou qualquer outra coisa pelo preço de uma caneta é lindo e tem poesia e é também a sua colaboração para visionários e altruístas bilionários em dólar alcançarem o espaço.

Imagine que seus dados não são seus, mas dos aventurados bilionários em dólar que, afinal, fizeram por merecer. Imagine que você pertence a eles e que eles não ligam mais pra dizer "oi, sumida".

Imagine um mundo só eficiência e mérito e que você faz parte disso, você veste a camisa e poupa dinheiro para comprar mais coisas que não precisa apenas porque você pode, porque você venceu.

Imagine que os pequenos comerciantes que já não existem mais eram mesmo maus, extorsivos, incompetentes, e a vida é assim mesmo e eles mereceram, quem mandou não se atualizar, né, pequeno e dinossauro e eu avisei. Imagine que, ainda assim, você fez a sua parte e escreveu um post emocionado quando eles anunciaram o fechamento e foi às lojas deles, depois de três anos, comprar na última semana de funcionamento com 50% de desconto.

Apenas imagine.


*Daniel Louzada é livreiro da Leonardo da Vinci


O fechamento da livraria Timbre

O fechamento da livraria Timbre
Timbre, 41 anos de história no Rio de Janeiro

Quando uma livraria fecha as portas, se vai para sempre um pouco da inteligência, da sociabilidade, da memória de um lugar. Um país que não consegue manter abertas suas livrarias relevantes, ainda que essas sejam tão poucas, parece condenado a não ser.

Não sendo, por trás do gozo mercantil das corporações e de seus associados locais, o que vai sobrando nas cidades é um eterno presente, consumidores alienados da cultura e das ruas, apartados simultaneamente do horizonte e da vizinhança.

Consumidores não precisam de história. Ao cidadão, palavra em desuso na época em que o necrocapital dá as cartas, já parece normal uma livraria fechar.

Vitimados pela nossa impotência naturalizada, ainda poderemos encontrar algum consolo em um "lugar de charme", a antítese de livraria que atende a minorias elitizadas, lugares onde o livro é mero adorno, desprovido de substância, oco, controlado pelas mesmas fontes, submetido aos mesmos modismos; ou talvez fazer uma postagem ou, quem sabe, comprar nas livrarias que fecham em suas últimas semanas de vida. Lamentar, e não agir antes, parece ser o espírito desse tempo de derrotas. E a derrota também pode viciar.

Nossa homenagem à trajetória de 41 anos da Livraria Timbre e sua contribuição para uma cidade civilizada. Que a história da Timbre e as de outras livrarias que lutam dignamente iluminem nossos horizontes e ruas.

*A Timbre fecha suas portas em 31.01.2021. Até lá todos os livros estarão em promoção na livraria.

Daniel Louzada, livreiro da Leonardo da Vinci


Curso Gramsci - uma introdução

Curso Gramsci - uma introdução

Curso Gramsci - Inscrições abertas!

Com muita alegria, no mês em que a Da Vinci completa 68 anos, anunciamos o curso Gramsci, uma introdução.

Depois do sucesso do curso Marx em 2019, lançamos agora um curso dedicado a Antonio Gramsci. Sob a curadoria do professor Marcelo Badaró, o curso é 100% online e reúne oito professores especializados na obra do pensador italiano.

O curso pretende oferecer uma introdução qualificada ao pensamento de Gramsci em suas diferentes dimensões, abordar a influência que teve no século XX e a repercussão e atualidade de suas interpretações.






Programação do curso

Aula 1 - Antonio Gramsci, trajetória
Prof. Marcelo Badaró (UFF)

Aula 2 - Gramsci e o Estado
Profa. Sonia Mendonça (UFF)

Aula 3 - Gramsci e o fascismo
Prof. Gilberto Calil (Unioeste)

Aula 4- Gramsci e a questão democrática
Profa. Virgínia Fontes (UFF – Fiocruz)

Aula 5 - Gramsci e a educação
Profa. Lúcia Neves (UFF)

Aula 6 - Gramsci, cultura e literatura
Profa. Daniella Mussi (USP)

Aula 7 - Gramsci para entender o Brasil
Prof. Demian Melo (UFF)

Aula 8 - Gramsci para mudar o mundo
Prof. Eurelino Coelho (UEFS)

O curso estará disponível em uma plataforma online em que o aluno terá acesso exclusivo. Na plataforma, além das aulas em vídeo, materiais de apoio serão disponibilizados por cada professor.

O curso poderá ser acessado por 30 dias a partir do início - 1.10.2020 - ou a partir da data de matrícula após essa data.

Será concedido certificado de participação pela Livraria Leonardo da Vinci aos alunos que assistirem todas as aulas.

O valor do curso é R$ 150,00 e pode ser pago online (só nos contatar pelo whatsapp/telegram 21 98696-9985) ou direto na loja.

No período do curso, os livros de ou sobre Antonio Gramsci estarão disponíveis na Da Vinci com 20% de desconto.

Se tiver qualquer dúvida, escreva.



Imaginar o futuro, apesar de tudo

Imaginar o futuro, apesar de tudo
Angelus Novus - Paul Klee

Leonardo Cazes*

No início da quarentena, lá para os idos de abril, quando os bares e as praias ainda estavam vazios, multiplicaram-se publicações nas redes sociais em que a pandemia e as medidas que impunha eram classificadas como "fim do mundo". Hipérbole, desabafo ou diagnóstico, pouco importa. Meu incômodo estava na própria ideia de que estaríamos à beira do "fim do mundo".

Evocar o "fim do mundo" não é exatamente algo original. O reformador da Igreja Martinho Lutero viveu acreditando que o Juízo Final estava à espreita — e isso orientou de modo profundo sua ação no mundo. No nosso presente, a combinação de emergências sanitária, econômica e climática, de fato, assustam e muito. De repente, analogias bíblicas já não soam tão exageradas assim. A makita que martela o piso da casa do vizinho mais parece as trombetas do Apocalipse.

Por outro lado, se há um lugar onde o cansaço generalizado que acompanha o "fim do mundo" — talvez mais espírito do tempo que diagnóstico —, este é o Brasil. Somos um país vivido como frustração. Como chegamos até aqui? Por que parecíamos tão perto de dar certo e deu tudo tão errado? A pergunta ecoa pelas salas das universidades, pelas praças, pelas livrarias onde antes nos encontrávamos.

As respostas são várias. Provisórias, precárias, enganosas, ácidas, certeiras até se provarem erradas. Apesar das divergências, o marco zero é sempre 2013. Algo se passou ali, um antes e um depois. Um olhar retrospectivo, e um tanto amargurado, lê as Jornadas de Junho como espécie de prelúdio da catástrofe que se avizinhava e que não tínhamos consciência de que viria. Há também a leitura ressentida que vê Junho de 2013 como reação dos ingratos e vingança das elites — como se o projeto petista não tivesse engendrado suas próprias contradições que tantos fingiram não ver.

Em mim, habitam esses e outros Junhos. Hoje, olho para trás e vejo aqueles dias como um "incêndio na solidão". O último lampejo, a brecha aberta e depois fechada. Paulo Arantes, um dos mais agudos intérpretes do nosso tempo, estava certo: depois de junho, a paz será total. Só não estava claro, ali, que essa paz seria a paz dos cemitérios.

A gestão da morte, é bem verdade, sempre foi parte fundamental dos nossos projetos nacionais. A novidade, agora, é ela ter se tornado, ao mesmo tempo, meio e fim. Se abaixo do Equador a vida da gente nunca valeu muita coisa mesmo, agora vale menos que nada. Na guerra de todos contra todos pela sobrevivência, vence o mais forte, o mais escroto, o mais odioso. Tudo em nome de Deus, da pátria e da família. Transformar a terra no inferno em busca do Paraíso. Uma catequese às avessas.

Esta exposição deveria ser suficiente para convencer qualquer um de que, sim, aqui estamos no "fim do mundo". Contudo, se ao olhar a barbárie de frente não nos resta mais nada a fazer, já estamos mortos. Estaríamos, pois, condenados a gozar com a morte, tal como o presidente. Este, sim, seria o nosso fim.

Porém, o professor Marcio Tavares D'Amaral nos ensinou nas salas da Escola de Comunicação da UFRJ: nada é mais importante do que as nossas vidas comuns. Contra a morte, a aposta na vida. Contra o horror, a imaginação. Ao invés do "fim do mundo", a busca por um outro mundo.

Em meio aos corpos que são contados aos milhares, essas frases soam ingênuas, juvenis. Estamos exaustos entre trabalhos remotos, cuidados com a casa, com os filhos, com os mais velhos, consigo mesmo. No entanto, se nos contentarmos apenas em sobreviver, que vida teremos? Nossos algozes sabem que não precisam nos matar se adotarmos como nosso o modo de vida que só interessa a eles.

Comecemos, então, pelas pequenas coisas. Os afetos do cotidiano, as paixões, os carinhos. A solidariedade entre vizinhos, o sorriso por baixo da máscara. Um olhar amoroso sobre a natureza. Ouvir música, ler um romance, assistir a um filme. Toda forma de arte é uma janela que se abre para um outro mundo possível. Não à toa a arte é tão odiada por aqueles que não suportam nada disso, embriagados do próprio horror e aprisionados na própria miséria.

Imaginar o futuro, apesar de tudo. Esta é a tarefa histórica de nosso tempo. Vamos a ela, então. Reencantar o mundo, com as "centelhas da esperança" que recolhemos do passado, da nossa literatura, das nossas canções, de todos que vieram antes de nós.

*Leonardo Cazes é jornalista e doutorando em História (UFF).



A solidão e o contrário

A solidão e o contrário
Foto: Mauro Pimentel (AFP)

Daniel Louzada*

Na tarde de 18 de março de 2020, percebi que não havia alternativa senão fechar a Leonardo da Vinci. As perspectivas sobre o avanço da epidemia e o clima irreal vivido no país impunham a decisão imediata para preservar todos que a frequentavam. Às 17h escrevi o comunicado nas redes sociais e chorei. Às 19h, a livraria fechou as portas sem previsão de retorno. Não foi a primeira vez em sua longa história.

No dia seguinte eu estava de volta à Da Vinci. Não existia a opção de deixar de vender porque isso significaria o fim da livraria. Ainda que com todas as dificuldades e risco soube que tudo dependia de mim naquela manhã de quinta-feira. Uma pequena livraria como a Da Vinci é um empreendimento solitário, vive da persistência do seu livreiro, é produto dos seus triunfos e também de suas fraquezas e incompletudes.

Os meses seguintes foram cheios de tarefas, a maior parte do tempo executadas sozinho. Buscar atender bem os clientes que mantinham a Da Vinci de pé, dar conta de dezenas de atividades, do financeiro à limpeza, das redes sociais ao fornecimento; pedidos por whatsapp, renegociações, cartas de aviso da proteção ao crédito, o afeto das mensagens recebidas de todo país, noites insones, o metrô fantasmagórico, pacotes por fazer, uma pilha de boletos vencidos, a quentinha, a venda 60% menor. De novo e de novo. Dias de luta silenciosa entre o homem prático e o homem que se desespera.

Nesse período, o site entrou no ar, a venda pela internet aumentou e ainda que com grandes perdas foi possível manter algum faturamento para pagar as contas básicas e dívidas que surgiam. Dever: o verbo do tempo da mercadoria acelerada. Trabalhando no limite, percebi que devia ao mundo dinheiro, respostas, atenção.

Passei a sentir saudades de tudo. Nos momentos duros, precisei lutar contra a nostalgia. A guarda estava baixa, senti falta das pessoas que conheço e não conheço, do cheiro do café, das conversas, das interrupções, da casa cheia e dos debates, do homem que invadia a loja esbaforido oferecendo um unguento para os clientes, de vigiar o ladrão eventual. Uma livraria sem pessoas é um lugar triste. Livrarias não foram concebidas como bibliotecas, a contribuição não ordeira do fluxo dos corpos em diálogo é seu fundamento.

Sentado na poltrona do meio da loja com a luz apagada, foram muitas as vezes em que olhei as prateleiras, cada lombada na penumbra, talvez esperando uma revelação. Os livros nunca se moveram, nenhum mensageiro do além apareceu. Durante muito tempo esperei algo extraordinário acontecer na minha vida. Lembrei que quando eu cumpria mal os rituais em um lugar onde quase ninguém lia e tentava fingir ser outro em troca de um salário, um amigo me disse, contrariando seu hábito de poucas palavras: daqui a quarenta anos, te vejo numa livraria subterrânea, corcunda, atrás do balcão. Tento lembrar da expressão dele no momento do vaticínio, perco o fio da memória. Livre de divisórias, e balcões, hoje ele trabalha na Faria Lima, parece que “mudando a vida das pessoas”. Ganhamos a vida, sabendo que a perdemos.

À solidão da livraria perdida no subsolo de um prédio antigo se somava a solidão das ruas desoladas do centro da cidade. Ver a Rio Branco dia após dia, sem vendedores ambulantes, livre do burburinho e das histórias intuídas de seus passantes, olhar as janelas dos edifícios e saber que não havia ninguém naquelas salas era como já estar em outro mundo. Quatro ou cinco vezes ao sair da loja à noite, na esquina da Almirante Barroso vi um rato, um rato que passeava sempre de um mesmo bueiro a outro. Não pude deixar de pensar que éramos sobreviventes de um lugar esquecido.

Vinte e dois anos trabalhando com livros não me ensinaram tanto quanto o que vivi nos últimos meses. É a vida real que define o nosso lugar no mundo e não o que queremos parecer nos falsos espelhos que se multiplicam. A desgraça nacional e também o excesso de conexão renovaram minha consciência sobre a necessidade dos livros. Nunca foi tão necessário ler. “O ruído não me permite existir”, disse o personagem de O silencieiro: precisamos de menos coisas e mais substância, mais sentido e menos rumor.

A Da Vinci reabre em modo reduzido nesta segunda, 6 de julho de 2020, 109 dias depois de fechar; vive porque nunca esteve só. A morte e a indecência compõem a paisagem brasileira, a racionalizada crueldade econômica e seu desastre sanitário se somam a um vírus poderoso, o antiintelectualismo. Saímos piores disso, é verdade. Livrarias, as verdadeiras, servem para lembrar que não estamos condenados à derrota, contudo. Não será dessa vez o fim da nossa estirpe sobre a terra.

*Daniel Louzada é livreiro da Leonardo da Vinci